Travessia da Serra da Mantiqueira - 1996

Em julho de 1996 realizei uma linda travessia nas montanhas da Serra da Mantiqueira, desde o Pico Marins até Visconde de Mauá. Trata-se da união das travessias Marins-Itaguaré, Serra Fina e Rebouças-Mauá, feitas em solitário e sem reabastecimento de mantimentos e comida. Acredito que foi a primeira vez que alguém fez essa travessia, dessa forma, completa.
A travessia durou 11 dias (onde 10 dias foram caminhando e 1 dia fiquei parado na Marins-Itaguaré, por más condições climáticas e muita neblina).

Abaixo está um comentário que escrevi em meu diário de viagem, em julho de 1996:

Desde o início do ano eu já vinha sonhando com uma caminhada que atravessaria a porção mais alta da Serra da Mantiqueira. Na verdade esta seria uma união de três caminhadas já conhecidas das pessoas que freqüentam as trilhas da Mantiqueira. No entanto, eu nunca tinha ouvido falar de alguém que tivesse feito estas três caminhadas de uma só vez, uma seguida da outra. A caminhada consistiria em fazer primeiramente a travessia Marins-Itaguaré que termina aproximadamente no início da travessia da Serra Fina. Assim, após fazer a travessia da Serra Fina, eu estaria ao lado do Parque Nacional do Itatiaia e faria a travessia do Abrigo Rebouças à Visconde de Mauá. Além disso, a idéia era fazer toda a caminhada de uma forma contínua e auto-suficiente, sem reabastecimento de comida durante o percurso (ou seja: tudo o que eu necessitasse deveria estar levando em minha mochila).
Fui aos poucos me informando do percurso. As travessias Marins-Itaguaré e da Serra Fina são consideradas difíceis devido ao fato de a trilha não ser muito definida. A travessia Marins-Itaguaré, por exemplo, é uma caminhada bastante recente. Foi feita pela primeira vez em agosto de 1990, mas foi somente numa expedição organizada em 1993 pelo Centro Excursionista de Campinas que a trilha foi sinalizada e divulgada. Já a travessia da Serra Fina, embora mais antiga, é muito pouco freqüentada, de forma que a trilha é bastante fechada e mal sinalizada. A clássica travessia Rebouças-Mauá, no Parque Nacional do Itatiaia, foi muito freqüentada tempos atrás e por isso apresenta uma trilha bastante aberta na maior parte do percurso. O grande problema desta caminhada é que ela é proibida. Então, a única forma de se fazer esta travessia atualmente é na clandestinidade, correndo o risco de se levar multas pesadas.

Felizmente deu tudo certo. Foi uma bela experiência passar esses dias sozinho caminhando pelas montanhas da Serra da Mantiqueira.

Marins 2422m (Serra da Mantiqueira, SP; 04/Julho/1996)
Marinzinho 2432m (Serra da Mantiqueira, MG/SP; 06/Julho/1996)
Alto do Capim Amarelo 2392m (Serra Fina, MG/SP; 09/Julho/1996)
Pedra da Mina 2770m (Serra Fina, MG/SP; 10/Julho/1996)
Cupim de Boi 2525m (Serra Fina, MG/SP; 10/Julho/1996)

Três Estados 2665m (Serra Fina, MG/RJ/SP; 11/Julho/1996)


Foto: Vista do cume do Pico Marins, olhando o Marinzinho (esquerda) e o Itaguaré (direita)

Foto: Após passar pelo Marinzinho (visto ao fundo)

Foto: Pico Marins (esquerda) e Marinzinho (direita)

Foto: Pedra Redonda (em primeiro plano), Pico do Itaguaré (em segundo plano) e Serra Fina (em último plano)

Foto: Acampamento, com o Pico do Itaguaré ao fundo

Foto: Alto do Capim Amarelo, na Serra Fina. Ao fundo pode-se ver o Marins e o Itaguaré.

Foto: Serra Fina

Foto: Em primeiro plano: Pico dos Três Estados (esquerda) e Cupim de Boi (direita). Ao fundo: maciço de Itatiaia e a Serra Negra

Foto: Pico Cupim de Boi (esquerda) e Pico Cabeça de Boi (centro), na Serra Fina

Foto: Maciço de Itatiaia, visto da Serra Fina: Pedra do Altar, Agulhas Negras e Couto (no centro) e Prateleiras (à direita)

Foto: Pedra do Picu, vista do final da travessia da Serra Fina

Foto: Pico de Agulhas Negras, ao amanhecer

Foto: Pico de Prateleiras, ao amanhecer

Foto: Pico de Prateleiras, ao amanhecer

Foto: Geada, com o Morro do Couto ao fundo. Nessa noite fez -6ºC

Foto: Lago, pouco antes da Pedra do Altar

Foto: No vale do Aiuruoca

Foto: Planta congelada

Foto: Cachoeira do Aiuruoca

Foto: Pico de Agulhas Negras, ao amanhecer, visto pelo "lado de trás", no último acampamento (na crista do Pico Maromba, antes de descer em direção à Maromba e Visconde de Mauá)

Foto: Cachoeira desconhecida, antes de chegar na Maromba

Foto: Comemoração num boteco em Visconde de Mauá, antes de pegar uma carona para Rezende

Texto e Fotos: Roberto Lacaze

3 comentários:

  1. Parabens pala viagem, pela ideia. E principalmente pelas pernas, elas devem ter andado bastante. :-)
    Vc tem ideia de quantos quilos tinha na mochila ? Como foi a dieta que vc preparou para a viagem ? Fazia duas refeições por dia ? Essa parte logistica eu teria muito interesse em saber. valeu. Cassiano kksantos@gmail.com

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  2. Olá Cassiano,
    Sim, foi uma linda caminhada! Além de um momento de retiro, dentro de mim mesmo (pois fiz em solitário). Acho que foi uma viagem mais interior do que exterior.
    Quando fiz, ainda não conhecia nenhuma destas travessias. Além disso, naquela época as trilhas eram bem mais fechadas, por isso precisei levar um facão. Hoje não é necessário.
    Bom, levei o mínimo necessário. Uma muda de roupa. Equipo básico de camping: fogareiro, barraca, saco-de-dormir, etc... Não levei isolante térmico, para poupar volume (pois naquela época as trilhas eram mais fechadas e o isolante atrapalharia, enroscando na vegetação). Além disso, nessas travessias deve-se carregar água, pois em diversos locais de acampamento não há água: 3 litros por pessoa são suficientes para tomar e para cozinhar (tentando sempre não gastar muita água para cozinhar). Quanto a comida, levei macarrão “spaghetti” (todos os dias!), por ser bastante energético e ocupar pouco volume. Não levei molho, colocava somente bastante queijo ralado em cima, e pronto. Levei um pacote de spaghetti de 500g para cada 3 dias. Levei também algumas (poucas) sopas prontas, para emergência, caso necessitasse ficar mais dias.
    Enfim, cozinhava uma vez por dia, sempre no fim do dia, depois que terminava de caminhar. E para o “café-da-manhã” e também durante o dia: levei coisas bastante energéticas, como chocolate, castanhas, amendoim, bolachas (não tanta bolacha, pois é muito volumoso). A idéia é dar preferência para alimentos bastante energéticos e também que sejam densos (maior peso para um menor volume).
    Com tudo isso, a mochila cargueira já está cheia. Não sei quantos quilos... mas é o suficiente ;-)
    Por isso é importante levar apenas o estritamente necessário. E saber poupar durante a caminhada. É um ótimo exercício de abstenção dos confortos, o que nos garante um grande aprendizado interior e uma enorme recompensa ao final da jornada.

    Boas caminhadas!
    Abraço

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